Sabendo que o marido não iria ficar com os miúdos mais do que meia hora, ela resolveu deixá-los a sós e saiu. Não conseguia ficar debaixo do mesmo tecto com o pai dos seus filhos, sabendo que o homem que mais amava já não sentia nada por ela.
A moto dele estava estacionada à porta de casa, tinha sido comprada já depois de estarem separados. Enquanto estiveram juntos o carro sempre foi o seu meio de transporte, para ir para o trabalho ou ir buscar as crianças à escola e aos domingos, todos juntos, eles, as crianças e o cão, faziam longos e divertidos passeios. Eram o retrato de uma família normal.
Como foi possível termos chegado a este ponto? Pensava ela.
Tinha sido um amor tão bonito. Casaram-se contra a vontade dos pais dele, pessoas de condição social e económica superior às outras lá da terra e que ambicionavam para o seu filho um casamento com uma rapariga do seu nível. Ela era pobre, mas ele apaixonara-se perdidamente. E foram felizes...mas não para sempre.
Quando foi que eu me descuidei e deixei uma brecha aberta na nossa relação e permiti a entrada de outra pessoa?...as lágrimas caíam sem que as evitasse perante o olhar das pessoas que se cruzavam com ela na rua.
E sentiu raiva, muita raiva, por ela, por ele, mas principalmente pela outra mulher.
Ao princípio, embora ferida no seu coração e no seu amor-próprio, ainda pensou que tudo não passava de um deslumbramento, alguma mulher estava a falar-lhe ao ouvido (sim, porque elas são terríveis) e ele estava a deixar-se ir na cantiga, mas o seu amor pela família haveria de falar mais alto.
No entanto, quando o marido telefonou na noite anterior a pedir para ir ver os filhos, tinha-lhe dito que ia viver com a outra e ela chorou, chorou até ao amanhecer e jurou para si mesma que isso nunca aconteceria.Voltou para casa. Ele já estava na rua com os miúdos que admiravam, deslumbrados, a moto do pai.
Aproximou-se do marido e pediu-lhe ao ouvido, "fica". Ele olhou-a como se ela lhe tivesse pedido a lua e respondeu-lhe, "já não te amo, desculpa". Então, num grito de dor e desespero ela lançou-lhe entre dentes "se não és para mim, não és para mais ninguém!" e entrou em casa com os miúdos.
Ele subiu para a moto e partiu. Tinha pena dela, mas era só o que sentia, ninguém vive acorrentado a outra pessoa por ter pena. Ia pensando, distraído...e não viu, ao chegar ao cruzamento, o camião desgovernado que o atingiu provocando-lhe morte imediata.
Em casa a mulher ainda murmurava..."Se não és para mim, não és para mais ninguém!"
Credo...
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