sábado, 12 de maio de 2012

Mike...



Fruto de uma relação incestuosa entre mãe e filho, nasce o pequeno Mike num segundo andar de um prédio urbano. Pequeno e feio foi dado à luz mas nunca a viu, para mal dos seus pecados, pois nasceu cego. Desde logo abandonado pelo pai e perante o olhar indiferente dos outros irmãos, Mike começou a ser negligenciado pela mãe que não o alimentava e a ser vítima de maus tratos, como se podia comprovar pela marca ensanguentada no seu pescoço. Perante tamanha desgraça houve alguém que um dia, num acto de puro amor, o arrancou às garras daquela família e tomou a responsabilidade de criar o pequeno ser.
Estava em tão mau estado de subnutrição e era tão franzino que no início se chegou a pensar que dificilmente sobreviveria mas, saciada a fome, saradas as feridas, protegido e amado o pequeno Mike depressa desabrochou  para a vida.
Chegada a altura das descobertas, todos os móveis lá de casa passaram a ter lugar cativo, nada era deixado ao acaso, nem uma cadeira fora do lugar, nada que pudesse interferir com as deambulações, às cegas, do pequeno e ele depressa aprendeu onde se situavam as coisas que lhe eram importantes. Assim cresceu, saudável e feliz, fazendo tudo o que na sua idade lhe era permitido sem que o facto de ser invisual o limitasse no que quer que fosse. E fez-se adulto.
Quando a bela Ema lhe foi apresentada, ele não pôde ver os lindos olhos da cor do mel que o fitavam embevecidos, tampouco a ela lhe importou que Mike não os pudesse ver, houve emoções que falaram mais alto e foi amor à primeira "vista". Dessa feliz união nasceram dois filhos lindos, perfeitos e a alegria foi rainha. Ema transformou-se numa mãe e companheira zelosa e dedicada, sempre atenta para que nada faltasse à sua família.
O tempo passou, os filhos cresceram e tornaram-se independentes e a bela Ema mudou. Todos os dias se ausentava de casa, durante horas, deixando o companheiro triste e apreensivo, mas numa coisa ela fazia questão de honra, nunca o deixar só à hora das refeições e assim, pontualmente, voltava a casa.
Mas um dia...há sempre um dia...a Ema não voltou! Apesar de todos os esforços para encontrá-la, até hoje ninguém soube do seu paradeiro.
O Mike entristeceu, envelheceu e adoeceu. Na sua última visita ao médico teve que ficar internado, tinha contraído uma doença renal que lhe foi fatal. Faleceu durante a noite...com apenas nove anos de idade.


Dedicado ao meu querido amigo Mike, o meu gato siamês.


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