segunda-feira, 21 de maio de 2012

Agostinho da Silva à conversa...


Luís Machado - Será que, às vezes, o senhor não se sente um homem solitário?

Agostinho da Silva - Não, não me sinto. Como é que eu posso estar sozinho se no fundo sou um homem que se interessa por tanta coisa que existe no mundo!

LM - Mas não se sente um pouco desacompanhado? 



AS - Não. Olhe, vou repetir o que já algumas vezes tenho dito: eu sinto-me sempre acompanhado. Mais que não fosse, pelo menos, tinha o Sol e a chuva...


LM - São realmente boas companhias, mas o que pensa da solidão?

AS - Acredito que não deve ser fácil as pessoas estarem desacompanhadas, sentirem-se sozinhas, não comunicarem com ninguém. Daí, companhia, não é. Companhia vem de «comer o pão juntamente com outro».

LM - Pois, no fundo as pessoas sentem-se por vezes tristes e sozinhas porque não têm com quem partilhar as coisas...

AS - Ora é isso mesmo...Partilhar o que há, comer com o outro. Mas há ainda outra coisa, que é, digamos, outra espécie de retiro: «o retiro da existência». É sempre bom lembrarmo-nos que «camarada» é o que dorme no mesmo aposento em que dormem os outros; e há ainda a terceira ligação, que é «colega». «aquele que tem a mesma lei». Portanto, se podemos, escolhemos uma destas três «solidões».

LM - Qual é a que o senhor escolhia?

AS - Eu não escolhia nenhuma, só que elas às vezes parece que combinaram e aparecem todas ao mesmo tempo!

LM - Como encara a morte?

AS - Com serenidade...Se não a encararmos como um fantasma, se não a esperarmos com a resignação dos Gregos, se a virmos apenas como uma forma entre as formas, então ela é natural. Mas eu nunca morri, portanto não sei o que isso é...




Retirado do livro A Última Conversa - Agostinho da Silva. Entrevista de Luís Machado

1 comentário:

  1. O homem inventa tudo, só não inventou, ainda, uma vacina para matar o trabalho !
    Agostinho da Silva

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