Nem sempre sou igual no que digo e escrevo. Mudo, mas não mudo muito. A cor das flores não é a mesma ao sol de que quando uma nuvem passa ou quando entra a noite e as flores são cor da sombra. - Fernando Pessoa
domingo, 20 de maio de 2012
Carta à minha irmã
Carta à minha irmã, a viver na Alemanha.
14/04/1996
Minha querida irmã,
Espero que ao receberes esta carta estejam todos bem. Escrevo à máquina porque o teu português já não é o que era e assim percebes melhor. Por aqui o tempo passa lentamente.
No momento em que escrevi o rascunho para esta carta, estava sentada ao lado da nossa mãe. Já não me presta atenção nenhuma. Nos últimos dias eu entro e saio do quarto e ela nem dá por isso, está quase sempre a dormir ou, pelo menos, tem os olhos fechados. Não reage a nada, foi-se toda a alegria, para aqui está deitada à espera que os dias passem, já não há fados, nem cantigas, nem histórias antigas, nem sequer lágrimas. Só há tristeza, apenas isso.
Quase cinco meses estão passados desde que o médico lhe deu duas semanas de vida. Chorei dias e dias a fio, deixei de comer e de dormir, larguei a minha casa e a minha família, como sabes, e vim para aqui para tratar dela, até ao fim. Cinco meses que a mim mais parecem cinco anos, dias intermináveis de preocupação constante a ter de encarar esta situação todos os dias, Já nem sei quando foi a última vez que estive alegre e despreocupada, sem ter que pensar em nada. Acho que já foi há muito tempo pois nem me lembro. Nestes últimos anos a vida não me tem sorrido muito e a nível de trabalho as coisas também não andam bem, o dinheiro é pouco. Tenho que ajudar a mãe com as despesas, a reforma dela mal dá para pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás e ela precisa de medicamentos, fraldas e também tem que comer. Ando completamente desorientada.
E é assim a vida. Já passou o Natal, o Ano Novo, os Reis, o Carnaval e a Páscoa, eu estou esgotada, mal encarada e sinto que envelheci, não sei se consigo aguentar outros cinco meses. Se a mãe tivesse morrido naquela altura que o médico disse, tinha sido um choque muito grande para mim, mas eu já teria chorado tudo, sofrido tudo e já tudo teria passado. Doa a quem doer as verdades têm que ser ditas, não há nada pior do que ver a nossa mãe feita um farrapinho a definhar naquela cama, ter que a alimentar através de um tubo senão morre à fome , ter que lhe mudar a fralda senão fica suja e ver os dias a se arrastarem uns atrás dos outros, enormes, parece que nunca mais acabam e a mãe a ficar cada dia mais pequena.
Se hoje já não há lágrimas por se terem esgotado há, isso sim, um grande aperto no coração e muita pena por vê-la neste estado e só Deus sabe até quando.
Beijos e muitas saudades desta tua irmã.
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Com estas palavras, deixaste-me sem elas ! Apenas lágrimas!Para ti já passou! Beijinho
ResponderEliminarTodos temos que passar por isto, é a Lei da vida. Deus não nos dá dores que não possamos ultrapassar, por isso, tudo passa...só não passa nas nossas memórias.
ResponderEliminarBeijinho grande.