quinta-feira, 31 de maio de 2012

Não Pago!




Domingo de Pentecostes, 27 de Maio, decorre em El Rocio a rainha de todas as festas, a maior Romeria de Espanha que atrai, todos os anos, grandes multidões de forasteiros crentes ou apenas curiosos.
Eu já lá tinha estado mas fora da época da Romeria, até comprei um chapéu numa pequena loja de esquina. Lembrava-me que as ruas não eram de asfalto mas sim de areia. Foi curioso ter entrado num restaurante para almoçar e, desde a porta de entrada até mais ou menos a meio do estabelecimento , havia areia por todo o lado e ninguém limpava, nem se incomodava. Para mim isso só seria possível num restaurante na praia. Tudo aquilo me pareceu estranho, parecia-me que estava no meio de qualquer filme antigo de cowboys pois só via  homens de chapéu e montados em lindos e altos cavalos.
Mas agora, passados alguns anos, tudo me pareceu maior e o extenso areal perdia-se ao longo das ruas e praças. Gente por todo o lado, homens, mulheres e crianças trajados a rigor numa mistura alegre de cores e flores, muitos cavaleiros e muitas carroças puxadas por cavalos e mulas... foguetes no ar, sinos a tocar, muitas tendas de venda ambulante, muita música, muita dança, muitos "abanicos de colores", muita animação, muita alegria, muita cerveja, muitas bebedeiras e, acima de tudo, pó...muito pó no ar. Vi, também, alguma devoção.
Um ambiente quase irreal que nos agarra e embala nos seus movimentos de dança, quase sensuais, e as vozes em uníssono com o bater de palmas cadenciado. Olé, Espanha!

Querendo passar despercebida por entre a multidão multicolor, levei na cabeça o chapéu que lá tinha comprado, uns anos antes, apliquei-lhe uma flor a condizer com a minha saia rodada e calcei as minhas botas de cano alto (ideais para andar naquelas ruas e sem o problema de entrar areia para dentro dos sapatos). Não fui só, éramos dois casais perdidos na euforia da festa.
Na grande praça El Real celebrava-se a missa quando dei por mim um pouco afastada do grupo. Uma cigana, de olhar doce, aproximou-se com uma braçada de raminhos de alecrim. Estendeu o braço com um dos raminhos na mão, tão pequeno como um dedo mindinho, e entregou-me, dizendo que era para eu colocar aos pés da virgem e fazer um pedido. Achei bonito o gesto que me pareceu de devoção e amor ao próximo e aceitei com um sorriso nos lábios. Enquanto balbuciava muchas gracias ela pediu-me uma moedinha para ajudar nalguma coisinha. É claro que sim e retirei da carteira uma moeda de um euro. Ficou feliz. Notando que eu era forasteira perguntou-me de onde eu era, conversámos um bocadinho. Quando me ia afastar, ela , como a querer retribuir a minha atenção, pediu-me com um sorriso meigo que lhe mostrasse a minha mão, estendi-a e desculpei-me por uma pequena alergia que costumo ter, sempre por esta altura do ano, que me põe as mãos a mudar de pele. Ela sorriu novamente e começou a desfiar um rosário de palavras imperceptíveis que as minhas mãos lá lhe transmitiam. Embora não percebendo metade do que ela dizia e não acreditando em leitura da sina, eu ia acenando com a cabeça para me mostrar agradada, de seguida pediu-me a outra mão e deu-me a escolher o tema: amor, saúde, dinheiro. Quero lá saber do dinheiro, estou aqui para viver as emoções de uma festa religiosa, do amor ao próximo, da felicidade e a missa estava a decorrer.
 Meu Deus o que uma simples moeda de um euro pode fazer quando uma pessoa necessita dela! Em menos de meio minuto fiquei a saber o meu passado, presente e futuro. Agradeci àquela boa alma e despedi-me!
Mas, de repente, o meu momento de amor fraternal e universal desfez-se quando ela me diz que tenho que lhe pagar vinte euros. O quê? pergunto. Vinte euros diz-me ela. Vinte euros??? continuo eu. Sim, como estes, diz abrindo a carteira e mostrando a nota, não fosse eu não ter entendido vinte em espanhol. Não te dou nada, mas tens que dar, não dou, mas eu estive a ler a sina, mas eu não te pedi que o fizesses, mas agora tens que dar os vinte euros. Olha toma lá o teu raminho, fica lá com ele porque eu não te pedi nada. E afastei-me deixando a cigana a resmungar, ou a rogar-me alguma praga.
Senti que tinha feito figura de parva, ali no meio da multidão, de mão estendida à cigana, pensando que estava a ser educada ao dar-lhe atenção e afinal ela estava a tratar de negócios. Juntei-me aos membros do meu grupo e contei o sucedido e eles riram-se da minha ingenuidade..
Sentados a uma mesa, enquanto íamos petiscando umas iguarias, eu ia pensando que o chapéu com a flor e a saia rodada não eram suficientes para me camuflar, sentia-me um pouco vulnerável e à mercê dos oportunistas, faltava mais um acessório. Então, eis que aparece um marroquino que, de mesa em mesa, ia fazendo venda de leques e xailes. Mesmo a calhar! Quanto custa o xaile? Cem euros, responde ele. Cem??? Toma lá cinco! E o xaile poisou, delicado, em cima da mesa com um desconto de 95 euros...
Já não há respeito pela Santa!!!

Eugénia Sena

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Insana

24/06/2011

Esta noite fui atacada por uma insónia insana que me pôs às voltas na cama, que me deixou com os pés para a cabeceira e a cabeça para o lado dos pés, que me fez rolar na cama até poder ver, mesmo deitada, as estrelinhas lá no céu, que me pôs à janela a altas horas da madrugada, que me mandou para a sala ligar a televisão e fumar metade de um maço de cigarros e novamente para o quarto, pôr um braço por cima do meu companheiro e, por fim, adormecer!...Não faço ideia de que horas eram.

Infelizmente isto dá-me muito tempo para pensar e tudo me vem à cabeça.
Dúvidas que afloram sorrateiramente e que, de repente, sem eu saber como, se transformam em verdades avassaladoras. Terei alguma doença mental?
Porque é que agora estou bem e mais logo estou mal? Porque é que o que é verdade agora mais tarde deixa de o ser? Porque é que me preocupo com coisas que foram rotina toda a minha vida e que, agora, adquirem uma importância enorme?
Sinto que afasto de mim as pessoas que estão à minha volta. . Deixei de ser uma boa companhia e tornei-me numa pessoa amarga, irónica, má e sempre a "morder" todos nos seus pontos mais frágeis, qual víbora venenosa. Se não me sinto feliz não permito que os outros o sejam!
Por outro lado, tenho momentos em que daria a minha vida para ver toda a gente feliz mas, principalmente, as pessoas que amo.

Onde foi que eu quebrei, em que momento?...O que aconteceu de tão importante que mexeu com toda a minha estrutura, que me atacou, abalou e derrubou, espalhando por sítios inalcançáveis, os bocadinhos bons que eu tinha em mim?
Perdi toda a minha auto-estima , fé e segurança própria. Perdi aquela sensação de Poder intocável que eu achava que tinha.
Perdi, também, a aula de hidro ginástica porque não acordei a tempo!!!!

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Piropo ou Boca Foleira


 

 "Se tu quisesses não te faltava nada". Foi há muitos anos mas lembro-me que achei graça, saber que havia alguém capaz de me dar tudo encheu-me o ego, mesmo sabendo que se tratava apenas de um piropo.

Vem isto a propósito de um artigo que li na Revista Domingo, do Correio da Manhã.  Parece que o Conselho da Europa decidiu que o piropo é um crime de assédio sexual verbal, punível.



Fotos tiradas através da revista Domingo - Correio da Manhã


Ora, não exageremos! O piropo, ao contrário de certas "bocas foleiras", tem a particularidade de mudar o nosso estado de espírito, transformar um dia cinzento e triste num esplendoroso dia de Primavera, quando bem dito e no momento adequado.
Como não aceitar uma frase bonita ou engraçada se ainda por cima é grátis e consegue arrancar-nos um sorriso?

É preciso não fazer comparações com as nojices que saem de certas bocas depravadas de gente porca e mal-educada. A esses só temos que lançar o nosso olhar de desdém (e nós sabemos muito bem como fazê-lo) ou então, se tivermos uma boa resposta na ponta da língua, reduzi-los à sua insignificância num piscar de olhos.





terça-feira, 22 de maio de 2012

Será que vamos voltar ao antigamente?


         Na apanha de berbigão.


Quando eu era criança, era uma alegria quando havia, lá em casa, marisco (entenda-se berbigão ou caranguejo), era sempre dia de festa para nós crianças, eu e a minha irmã. Os berbigões  vinham para o  prato já contados pois tinha que dar para todos e quanto aos caranguejos a parte que me pertencia eram as pernas, ou melhor, as perninhas (fiquei com a ideia de que os caranguejos, naquela época eram todos anões), os adultos comiam o resto. E quando a minha mãe fazia arroz de conquilhas...Uauu! Era o máximo! Eu costumava comer primeiro o arroz, deixava as conquilhas para o fim e depois comi-as à mão lambendo os dedos com alguns bagos de arroz à mistura. Ah!...mas era tão bom! Muito melhor que o feijão com arroz, o grão com massa, o peixe cozido, frito, grelhado, ou assado como nós dizíamos, com o fogareiro aceso na rua, à porta de casa. Na minha casa não se usava esta versão pois ninguém precisava de ver qual era o menú do dia.

Adorava ver os vizinhos na rua com os fogareiros e as sardinhas, equipados com cadeiras, as mesas não eram necessárias porque a sardinha saía do fogareiro directamente para cima do pão, e abancavam  à porta de casa. Como os passeios eram pequenos, o festim chegava até ao meio da rua. Naquele tempo, numa cidade pequena de província, eram poucos os carros que circulavam e, nas ruas estreitas das zonas menos ilustres, ninguém tinha automóvel. Podiam, portanto, estar à vontade.

Mas, às vezes, acontecia. Um carro aparecia ao virar da esquina e estava o carnaval armado e era ver aquela gente, cada um agarrado à sua cadeira e à sua sardinha, a ter que sair do meio da rua mais o fogareiro. Depois de passar o intruso voltava tudo à posição inicial pois, a hipótese de passar outro automóvel, era remota.

Naquele tempo eu não sabia o que eram perceves, sapateiras, santolas (os camarões apareciam sempre nos casamentos), lagostas ou lavagantes...enfim, o marisco dos pobres era o berbigão, conquilha e caranguejo. Hoje em dia, com a crise e porque passaram a ser mais apreciados e por isso mais caros, já se torna difícil chegar a estes também.

Será que vamos voltar aos tempos de antigamente?

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O adeus a Robin


Os Bee Gees fizeram parte da minha juventude e até hoje adoro ouvi-los...mas esta interpretação do Robin Gibb é, de longe, a que mais me marcou. Que voz extraordinária!


Hora de dizer Adeus a Robin Gibb
Até Sempre!


Agostinho da Silva à conversa...


Luís Machado - Será que, às vezes, o senhor não se sente um homem solitário?

Agostinho da Silva - Não, não me sinto. Como é que eu posso estar sozinho se no fundo sou um homem que se interessa por tanta coisa que existe no mundo!

LM - Mas não se sente um pouco desacompanhado? 



AS - Não. Olhe, vou repetir o que já algumas vezes tenho dito: eu sinto-me sempre acompanhado. Mais que não fosse, pelo menos, tinha o Sol e a chuva...


LM - São realmente boas companhias, mas o que pensa da solidão?

AS - Acredito que não deve ser fácil as pessoas estarem desacompanhadas, sentirem-se sozinhas, não comunicarem com ninguém. Daí, companhia, não é. Companhia vem de «comer o pão juntamente com outro».

LM - Pois, no fundo as pessoas sentem-se por vezes tristes e sozinhas porque não têm com quem partilhar as coisas...

AS - Ora é isso mesmo...Partilhar o que há, comer com o outro. Mas há ainda outra coisa, que é, digamos, outra espécie de retiro: «o retiro da existência». É sempre bom lembrarmo-nos que «camarada» é o que dorme no mesmo aposento em que dormem os outros; e há ainda a terceira ligação, que é «colega». «aquele que tem a mesma lei». Portanto, se podemos, escolhemos uma destas três «solidões».

LM - Qual é a que o senhor escolhia?

AS - Eu não escolhia nenhuma, só que elas às vezes parece que combinaram e aparecem todas ao mesmo tempo!

LM - Como encara a morte?

AS - Com serenidade...Se não a encararmos como um fantasma, se não a esperarmos com a resignação dos Gregos, se a virmos apenas como uma forma entre as formas, então ela é natural. Mas eu nunca morri, portanto não sei o que isso é...




Retirado do livro A Última Conversa - Agostinho da Silva. Entrevista de Luís Machado

domingo, 20 de maio de 2012

Carta à minha irmã







Carta à minha irmã, a viver na Alemanha.


14/04/1996




Minha querida irmã,
Espero que ao receberes esta carta estejam todos bem. Escrevo à máquina porque o teu português já não é o que era e assim percebes melhor. Por aqui o tempo passa lentamente.
No momento em que escrevi o rascunho para esta carta, estava sentada ao lado da nossa mãe. Já não me presta atenção nenhuma. Nos últimos dias eu entro e saio do quarto e ela nem dá por isso, está quase sempre a dormir ou, pelo menos, tem os olhos fechados. Não reage a nada, foi-se toda a alegria, para aqui está deitada à espera que os dias passem, já não há fados, nem cantigas, nem histórias antigas, nem sequer lágrimas. Só há tristeza, apenas isso.
Quase cinco meses estão passados desde que o médico lhe deu duas semanas de vida. Chorei dias e dias a fio, deixei de comer e de dormir, larguei a minha casa e a minha família, como sabes, e vim para aqui para tratar dela, até ao fim. Cinco meses que a mim mais parecem cinco anos, dias intermináveis de preocupação constante a ter de encarar esta situação todos os dias,  Já nem sei quando foi a última vez que estive alegre e despreocupada, sem ter que pensar em nada. Acho que já foi há muito tempo pois nem me lembro. Nestes últimos anos a vida não me tem sorrido muito e a nível de trabalho as coisas também não andam bem, o dinheiro é pouco. Tenho que ajudar a mãe com as despesas, a reforma dela mal dá para pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás e ela precisa de medicamentos, fraldas e também tem que comer. Ando completamente desorientada.
E é assim a vida. Já passou o Natal, o Ano Novo, os Reis, o Carnaval e a Páscoa, eu estou esgotada, mal encarada e sinto que envelheci, não sei se consigo aguentar outros cinco meses. Se a mãe tivesse morrido naquela altura que o médico disse, tinha sido um choque muito grande para mim, mas eu já teria chorado tudo, sofrido tudo e já tudo teria passado. Doa a quem doer as verdades têm que ser ditas, não há nada pior do que ver a nossa mãe feita um farrapinho a definhar naquela cama, ter que a alimentar através de um tubo senão morre à fome , ter que lhe mudar a fralda senão fica suja e ver os dias a se arrastarem uns atrás dos outros, enormes, parece que nunca mais acabam e a mãe a ficar cada dia mais pequena.
Se hoje já não há lágrimas por se terem esgotado há, isso sim, um grande aperto no coração e muita pena por vê-la neste estado e só Deus sabe até quando.

Beijos e muitas saudades desta tua irmã.




sexta-feira, 18 de maio de 2012

Se não és para mim, não és para mais ninguém

Entrou em casa. Os filhos correram para ele, alegremente, agarrando-se com força às suas pernas enquanto gritavam, "pai, vais ficar em casa esta noite?" Na esperança de que ele tivesse mudado de ideias, a um canto da sala a mulher esperou ansiosa pela resposta, ele beijou-os e respondeu, "esta noite não posso, meus filhos, tenho muito trabalho e passei só para vos dar um beijo". Passado o momento de desilusão, os pequenos depressa se recompuseram e, entre risos e abraços, começaram a contar, animadamente, as suas últimas peripécias em casa e na escola.
Sabendo que o marido não iria ficar com os miúdos mais do que meia hora, ela resolveu deixá-los a sós e saiu. Não conseguia ficar debaixo do mesmo tecto com o pai dos seus filhos, sabendo que o homem que mais amava já não sentia nada por ela.
A moto dele estava estacionada à porta de casa, tinha sido comprada já depois de estarem separados. Enquanto estiveram juntos o carro sempre foi o seu meio de transporte, para ir para o trabalho ou ir buscar as crianças à escola e aos domingos, todos juntos, eles, as crianças e o cão, faziam longos e divertidos passeios. Eram o retrato de uma família normal.
Como foi possível termos chegado a este ponto? Pensava ela.
Tinha sido um amor tão bonito. Casaram-se contra a vontade dos pais dele, pessoas de condição social e económica superior às outras lá da terra e que ambicionavam para o seu filho um casamento com uma rapariga do seu nível. Ela era pobre, mas ele apaixonara-se perdidamente. E foram felizes...mas não para sempre.
Quando foi que eu me descuidei e deixei uma brecha aberta na nossa relação e permiti a entrada de outra pessoa?...as lágrimas caíam sem que as evitasse perante o olhar das pessoas que se cruzavam com ela na rua.
E sentiu raiva, muita raiva, por ela, por ele, mas principalmente pela outra mulher. 
Ao princípio, embora ferida no seu coração e no seu amor-próprio, ainda pensou que tudo não passava de um deslumbramento, alguma mulher estava a falar-lhe ao ouvido (sim, porque elas são terríveis) e ele estava a deixar-se ir na cantiga, mas o seu amor pela família haveria de falar mais alto.
No entanto, quando o marido telefonou na noite anterior a pedir para ir ver os filhos, tinha-lhe dito que ia viver com a outra e ela chorou, chorou até ao amanhecer e jurou para si mesma que isso nunca aconteceria.
Voltou para casa. Ele já estava na rua com os miúdos que admiravam, deslumbrados, a moto do pai.
Aproximou-se do marido e pediu-lhe ao ouvido, "fica". Ele olhou-a como se ela lhe tivesse pedido a lua e respondeu-lhe, "já não te amo, desculpa". Então, num grito de dor e desespero ela lançou-lhe entre dentes "se não és para mim, não és para mais ninguém!" e entrou em casa com os miúdos.
Ele subiu para a moto e partiu. Tinha pena dela, mas era só o que sentia, ninguém vive acorrentado a outra pessoa por ter pena. Ia pensando, distraído...e não viu, ao chegar ao cruzamento, o camião desgovernado que o atingiu provocando-lhe morte imediata.
Em casa a mulher ainda murmurava..."Se não és para mim, não és para mais ninguém!"    

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Igual para todos?

Ela chegou ao hospital já em cima da hora da consulta.O parque de estacionamento estava cheio, olhou para todos os cantos, escuros, recuados ou apertados mas não havia um lugar livre, deu duas voltas à pista para se certificar que tinha visto bem e nada.Não gostava de chegar atrasada em situação nenhuma, nem para trabalhar, nem para se divertir e muito menos neste caso, uma questão de saúde.
Acabou por abandonar o parque e foi estacionar o carro fora da zona do hospital, numa rua mais acima.
Enquanto corria, apressada, em direcção à entrada ia pensando que, com todo aquele movimento de carros, o hospital devia estar cheio de gente, resultado deste calor que chegou de uma maneira súbita e que apanhou as pessoas desprevenidas nas suas defesas físicas originando gripes, constipações, alergias...
Dirigiu-se ao balcão e falou com uma das meninas. Nome do médico, hora da consulta, confirmação através do computador e depois aguardar que a chamem. Sentou-se ao mesmo tempo que passava os olhos pela sala de espera, sim, estava cheia de gente.
O ambiente era cuidado, sofás confortáveis, televisão ligada quase sem som, ar fresco e plantas por todo o lado. As funcionárias eram simpáticas, médicos, enfermeiros e outro pessoal que por ali circulavam na sua passagem para os gabinetes, imaculadamente vestidos e apresentados, iam deixando sorrisos pelo caminho. Os pacientes e acompanhantes esperavam calmamente pela sua vez de serem atendidos, em silêncio ou conversando, uns em voz baixa e outros mais alta, mas não se ouvia uma reclamação, nem um tom de voz mais áspera.
Não esteve cinco minutos sentada até ser chamada para a consulta que era de preparação para uma cirurgia (de rotina para o médico, mas importante para ela) e, em menos de uma hora, fez análises, electrocardiograma, RX ao tórax...e recebeu uma folha com todas as indicações necessárias sobre o que tinha que fazer e levar para o hospital. "Já está, agora a senhora vai receber em sua casa a informação sobre a data da operação." Disse-lhe a simpática funcionária.

Atravessou a ampla e requintada sala de espera, sentindo-se satisfeita pela forma como foi atendida e tratada por todos. Era um hospital particular, sem dúvida.
Este seria o serviço hospitalar que todos os portugueses mereciam, eficaz, eficiente, sem esperas e com bons profissionais. Infelizmente não está ao alcance de todas as bolsas e nem sequer da dela que, embora com um curso superior, trabalha a recibos verdes e é mal paga. Chegou ali com alguma ajuda e por um golpe de sorte do destino, ou do que lhe queiram chamar.
Deitou um último olhar sobre toda aquela gente na sala, a maioria estrangeiros de Leste...e saiu, entregue aos seus pensamentos.



segunda-feira, 14 de maio de 2012

Tarde calma


Por morar fora da cidade, numa zona pacata, onde os únicos carros que por aqui passam pertencem aos moradores, tenho o privilégio de não ser atingida pelo barulho infernal do trânsito. Os sons, por aqui, são mais campesinos.
Depois do almoço, nesta hora dormente em que o calor atinge o seu auge, o silêncio em minha casa é relaxante. Não se ouve um ruído vindo da rua, nem um cão a ladrar, nem um chilrear de um pássaro ...nada. Silêncio absoluto.
À espera que o sol gaste um pouco da sua energia, se canse e se incline mais para Poente, o mundo, lá fora, adormeceu o seu burburinho.

sábado, 12 de maio de 2012

Mike...



Fruto de uma relação incestuosa entre mãe e filho, nasce o pequeno Mike num segundo andar de um prédio urbano. Pequeno e feio foi dado à luz mas nunca a viu, para mal dos seus pecados, pois nasceu cego. Desde logo abandonado pelo pai e perante o olhar indiferente dos outros irmãos, Mike começou a ser negligenciado pela mãe que não o alimentava e a ser vítima de maus tratos, como se podia comprovar pela marca ensanguentada no seu pescoço. Perante tamanha desgraça houve alguém que um dia, num acto de puro amor, o arrancou às garras daquela família e tomou a responsabilidade de criar o pequeno ser.
Estava em tão mau estado de subnutrição e era tão franzino que no início se chegou a pensar que dificilmente sobreviveria mas, saciada a fome, saradas as feridas, protegido e amado o pequeno Mike depressa desabrochou  para a vida.
Chegada a altura das descobertas, todos os móveis lá de casa passaram a ter lugar cativo, nada era deixado ao acaso, nem uma cadeira fora do lugar, nada que pudesse interferir com as deambulações, às cegas, do pequeno e ele depressa aprendeu onde se situavam as coisas que lhe eram importantes. Assim cresceu, saudável e feliz, fazendo tudo o que na sua idade lhe era permitido sem que o facto de ser invisual o limitasse no que quer que fosse. E fez-se adulto.
Quando a bela Ema lhe foi apresentada, ele não pôde ver os lindos olhos da cor do mel que o fitavam embevecidos, tampouco a ela lhe importou que Mike não os pudesse ver, houve emoções que falaram mais alto e foi amor à primeira "vista". Dessa feliz união nasceram dois filhos lindos, perfeitos e a alegria foi rainha. Ema transformou-se numa mãe e companheira zelosa e dedicada, sempre atenta para que nada faltasse à sua família.
O tempo passou, os filhos cresceram e tornaram-se independentes e a bela Ema mudou. Todos os dias se ausentava de casa, durante horas, deixando o companheiro triste e apreensivo, mas numa coisa ela fazia questão de honra, nunca o deixar só à hora das refeições e assim, pontualmente, voltava a casa.
Mas um dia...há sempre um dia...a Ema não voltou! Apesar de todos os esforços para encontrá-la, até hoje ninguém soube do seu paradeiro.
O Mike entristeceu, envelheceu e adoeceu. Na sua última visita ao médico teve que ficar internado, tinha contraído uma doença renal que lhe foi fatal. Faleceu durante a noite...com apenas nove anos de idade.


Dedicado ao meu querido amigo Mike, o meu gato siamês.


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Maio, mês de flores e de pólen

O sol aqueceu os campos cobertos por um manto de plantas de toda a espécie e cores e libertou-os do pólen. O vento chegou e ajudou a espalhá-lo por todos os cantos.
Maravilhadas com a chegada do calor, assim, de um dia para o outro, as pessoas acorreram à rua para saudá-lo, passeando no campo e nos jardins, fazendo piqueniques e, ao mesmo tempo, inspirando sofregamente grandes golfadas de ar puro.
Resultado: espirros, nariz e olhos congestionados, dificuldades respiratórias, erupções cutâneas...
Ah! Maio, lindo Maio, mês das flores e do...a...a...atchim!!!!!!!...pólen.


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Já tenho um Blogue

Já tenho um blogue. Há já uns dias, ou melhor, algumas noites que vinha pensando no assunto porque passo muitas horas acordada ao computador ou a olhar para a televisão e precisava de algo que me acompanhasse nas minhas longas noites de insónia (ou quando me apetecer). Sou pessoa de dormir pouco, quatro ou cinco horas são suficientes e muitas vezes o sono só chega por volta das cinco ou seis da manhã. Daí a duas ou três horas todo o mundo se está levantando e eu nem consigo abrir os olhos para acompanhar o início do dia com a família. Em bem da verdade a família cá de casa sou só eu e o meu companheiro de longa data, a nossa filha mais nova ausenta-se com frequência e a mais velha é casada e está em sua casa. Portanto, não faz assim tanta diferença estar a dormir quando ele se levanta para sair porque ele não toma o pequeno almoço em casa e eu não tenho que ir a lado nenhum (pelo menos não todos os dias e nunca antes das dez horas, mas é claro que há excepções).
Pessoas, cães, gatos e pássaros, tudo dorme cá em casa e o som da televisão, para a qual nem olho, está baixinho para não os incomodar. Seria agora o momento ideal para pegar neste meu blogue, pronto a estrear, e começar a escrever mas, é como olhar para uma folha de papel em branco onde nos pediram para escrever qualquer coisa à nossa vontade. A nossa cabeça fervilhando de ideias que se atropelam, montes de coisas para contar, para deitar cá para fora...mas os nossos olhos ficam perdidos, fascinados na alvura do papel.
Amanhã, talvez.