
Domingo de Pentecostes, 27 de Maio, decorre em El Rocio a rainha de todas as festas, a maior Romeria de Espanha que atrai, todos os anos, grandes multidões de forasteiros crentes ou apenas curiosos.
Eu já lá tinha estado mas fora da época da Romeria, até comprei um chapéu numa pequena loja de esquina. Lembrava-me que as ruas não eram de asfalto mas sim de areia. Foi curioso ter entrado num restaurante para almoçar e, desde a porta de entrada até mais ou menos a meio do estabelecimento , havia areia por todo o lado e ninguém limpava, nem se incomodava. Para mim isso só seria possível num restaurante na praia. Tudo aquilo me pareceu estranho, parecia-me que estava no meio de qualquer filme antigo de cowboys pois só via homens de chapéu e montados em lindos e altos cavalos.
Mas agora, passados alguns anos, tudo me pareceu maior e o extenso areal perdia-se ao longo das ruas e praças. Gente por todo o lado, homens, mulheres e crianças trajados a rigor numa mistura alegre de cores e flores, muitos cavaleiros e muitas carroças puxadas por cavalos e mulas... foguetes no ar, sinos a tocar, muitas tendas de venda ambulante, muita música, muita dança, muitos "abanicos de colores", muita animação, muita alegria, muita cerveja, muitas bebedeiras e, acima de tudo, pó...muito pó no ar. Vi, também, alguma devoção.
Um ambiente quase irreal que nos agarra e embala nos seus movimentos de dança, quase sensuais, e as vozes em uníssono com o bater de palmas cadenciado. Olé, Espanha!
Querendo passar despercebida por entre a multidão multicolor, levei na cabeça o chapéu que lá tinha comprado, uns anos antes, apliquei-lhe uma flor a condizer com a minha saia rodada e calcei as minhas botas de cano alto (ideais para andar naquelas ruas e sem o problema de entrar areia para dentro dos sapatos). Não fui só, éramos dois casais perdidos na euforia da festa.
Na grande praça El Real celebrava-se a missa quando dei por mim um pouco afastada do grupo. Uma cigana, de olhar doce, aproximou-se com uma braçada de raminhos de alecrim. Estendeu o braço com um dos raminhos na mão, tão pequeno como um dedo mindinho, e entregou-me, dizendo que era para eu colocar aos pés da virgem e fazer um pedido. Achei bonito o gesto que me pareceu de devoção e amor ao próximo e aceitei com um sorriso nos lábios. Enquanto balbuciava muchas gracias ela pediu-me uma moedinha para ajudar nalguma coisinha. É claro que sim e retirei da carteira uma moeda de um euro. Ficou feliz. Notando que eu era forasteira perguntou-me de onde eu era, conversámos um bocadinho. Quando me ia afastar, ela , como a querer retribuir a minha atenção, pediu-me com um sorriso meigo que lhe mostrasse a minha mão, estendi-a e desculpei-me por uma pequena alergia que costumo ter, sempre por esta altura do ano, que me põe as mãos a mudar de pele. Ela sorriu novamente e começou a desfiar um rosário de palavras imperceptíveis que as minhas mãos lá lhe transmitiam. Embora não percebendo metade do que ela dizia e não acreditando em leitura da sina, eu ia acenando com a cabeça para me mostrar agradada, de seguida pediu-me a outra mão e deu-me a escolher o tema: amor, saúde, dinheiro. Quero lá saber do dinheiro, estou aqui para viver as emoções de uma festa religiosa, do amor ao próximo, da felicidade e a missa estava a decorrer.
Meu Deus o que uma simples moeda de um euro pode fazer quando uma pessoa necessita dela! Em menos de meio minuto fiquei a saber o meu passado, presente e futuro. Agradeci àquela boa alma e despedi-me!
Mas, de repente, o meu momento de amor fraternal e universal desfez-se quando ela me diz que tenho que lhe pagar vinte euros. O quê? pergunto. Vinte euros diz-me ela. Vinte euros??? continuo eu. Sim, como estes, diz abrindo a carteira e mostrando a nota, não fosse eu não ter entendido vinte em espanhol. Não te dou nada, mas tens que dar, não dou, mas eu estive a ler a sina, mas eu não te pedi que o fizesses, mas agora tens que dar os vinte euros. Olha toma lá o teu raminho, fica lá com ele porque eu não te pedi nada. E afastei-me deixando a cigana a resmungar, ou a rogar-me alguma praga.
Senti que tinha feito figura de parva, ali no meio da multidão, de mão estendida à cigana, pensando que estava a ser educada ao dar-lhe atenção e afinal ela estava a tratar de negócios. Juntei-me aos membros do meu grupo e contei o sucedido e eles riram-se da minha ingenuidade..
Sentados a uma mesa, enquanto íamos petiscando umas iguarias, eu ia pensando que o chapéu com a flor e a saia rodada não eram suficientes para me camuflar, sentia-me um pouco vulnerável e à mercê dos oportunistas, faltava mais um acessório. Então, eis que aparece um marroquino que, de mesa em mesa, ia fazendo venda de leques e xailes. Mesmo a calhar! Quanto custa o xaile? Cem euros, responde ele. Cem??? Toma lá cinco! E o xaile poisou, delicado, em cima da mesa com um desconto de 95 euros...
Já não há respeito pela Santa!!!
Eugénia Sena