terça-feira, 29 de julho de 2014







Fim de tarde de Verão, sentada na varanda ela observava tudo na dormência do cair da tarde. Não fixava o olhar em nada, os olhos semicerrados apenas vagueavam sem saber ao certo no que se fixar. Não havia nada de novo que valesse a pena demorar o olhar. Tudo igual, tudo calmo.
As gaivotas faziam grandes razias à varanda ou, então, ficavam planando sem movimentos de asas. Sempre lhes achou graça e até as invejava, senhoras do ar e do mar, que é como quem diz, não precisavam de ter medo de andar de avião ou de barco.
Desviou o olhar para o casario. As janelas mais altas ainda reflectiam a luz alaranjada do pôr-do-sol. Algumas pessoas também estavam, como ela, sentadas nas suas varandas, umas em amena cavaqueira e outras com a mesa posta para o jantar. Hoje jantam fora, pensou, a noite vai estar agradável e sem vento.
Na rua via gente a correr e a caminhar envergando fatos de treino. É uma boa hora para exercício físico, o calor já não aperta.
Olhando para a sua direita, vislumbrou, ao longe, numa nesga de rio um barco navegando, calmamente, deixando um pequeno rasto à sua passagem. À sua frente, ainda mais longe, a serra recorta-se em tom cinzento, contrastando com o rosa da cor do céu do fim do dia. 
Entretanto as gaivotas já rasgam o espaço em grupos barulhentos procurando o seu refúgio nocturno.
Tudo igual, tudo calmo neste fim de tarde que já é fim do dia e princípio de noite.

Eugénia Sena
 


29 de Julho 2014


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Desejo, amor, companheirismo...

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A primeira fase de uma relação passa sempre pela paixão.
Estar-se apaixonado é pura adrenalina. Olhares que se cruzam, bocas que se desejam , carícias que arrepiam e excitam, corpos que se procuram e abandonam. O nosso estado de ânimo varia entre a alegria extrema e a tristeza profunda, dependendo se estamos junto da outra pessoa ou não. É a fase da loucura total, em que cometemos actos impensáveis e nos tornamos audazes. Pode vir o maior terramoto, o maior dilúvio, pode cair a mãe de todas as bombas, o mundo pode acabar lá fora. Nada importa, a não ser aquela pessoa ali ao nosso lado. Eu morreria sem ti! (mentira, não morria nada.) ... É bom estar-se apaixonado.

A seguir vem o amor.
 É tempo de crescer, de aprender, de ir à luta e desbravar caminhos, percorrendo-os sempre juntos.
Nem sempre é fácil. Personalidades que se chocam, teimosias, falta de compreensão de parte a parte, discussões, ciúmes, muitas vezes provocados pela insegurança (espelho, espelho meu, haverá alguma mais bela do que eu?). São tempos tempestuosos... mas as pazes fazem-se entre as quatro paredes do quarto.
Aos poucos aprende-se a conhecer o nosso companheiro de viagem. Limam-se arestas, acertam-se ponteiros, fazem-se cedências, adaptam-se os feitios. E olhando na mesma direcção, rumo ao futuro, o amor dá frutos e torna-se adulto.

Depois vem o amor companheiro.
Instala-se na meia idade, quase sempre após a saída dos filhos de casa dos pais. Depois de anos a navegar com piloto automático, os dois encontram-se novamente frente a frente e ficam confusos, a muleta que os amparava foi retirada.
Muitos casais divorciam-se nesta altura pois reparam que já não têm nada para dizer um ao outro e nada que os ligue. Outros, pelo contrário, redescobrem-se. Ficam com mais tempo para se dedicarem um ao outro e voltam a sentir-se jovens, namoram, passeiam, fazem planos. Ao amor, junta-se o companheirismo.  Tornam-se obsessivos com o bem-estar e a saúde do companheiro.
 Os corpos, mais gastos, ainda se procuram...e à noite, na cama, dormem de "cadeirinha".

Por fim, o amor até que a morte nos separe.
Na velhice o casal vive em função um do outro, com um amor quase fraternal, um bem querer sem medida. Por vezes tornam-se refilões, a idade não perdoa, mas a verdade é que ela não vive sem ele e ele não vive sem ela. Eu morreria sem ti! (verdade, morria mesmo) ... É uma realidade! Quando um falta, a vida deixa de fazer sentido para o outro.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Morrer por amor





Talvez tenha interesse para alguém o que vou contar, principalmente se for apreciador de aves e mais concretamente, como é o caso, de caturras.
Por altura da morte da princesa Diana, está quase a fazer quinze anos, comprei uma caturra. O trágico acidente que vitimou a princesa ainda estava na minha lembrança e, como era uma pessoa que eu admirava, resolvi em sua homenagem dar à caturra o nome de Diana.
Tinham-me dito que estas aves eram inteligentes, que aprendiam depressa a imitar sons, assobiavam e até falavam. Bem, a minha Diana nunca falou mas aprendeu todos os assobios que eu lhe ensinei. Era um pássaro jovem, alegre e comunicava muito connosco através dos seus gritos e apitos.
Ao fim de quatro anos de estar na nossa casa, pensei que ela seria ainda mais feliz se tivesse companhia na gaiola, talvez um namorado. Eu não percebia mesmo nada do assunto! Nessa altura fiquei a saber que ela precisava era duma namorada, pois era macho. E de Diana passou a chamar-se Diano.
Foi-nos oferecida a linda "menina" para contentamento do meu Passarinho, era assim que eu o chamava. Arisca, não gostava muito de namoricos nem que ele lhe cantasse aos ouvidos os "lindos" assobios que eu lhe ensinara, sacudia a cabeça com desagrado e, muitas vezes, corria com ele à bicada.
Os anos foram passando, o Passarinho sempre majestoso no seu poleiro e ela sempre esgaravatando no fundo da gaiola, onde os vi namorar algumas vezes.
Todas as manhãs iam para a rua, excepto dias de chuva, de muito frio ou muito calor, e ao fim da tarde regressava a gaiola a casa. Assim foi, até há dois dias atrás.
Na segunda-feira de manhã, verifiquei a comida e a água antes de os levar para a rua, a  fêmea estava de pé no chão da gaiola, tudo normal, mas, enquanto os transportava, vi-a cambalear e desequilibrar-se. Achei estranho mas coloquei a gaiola no lugar e afastei-me, olhei para trás e vi que o macho tinha descido do poleiro e que me seguia com o olhar, de pescoço esticado. Olhei duas vezes e fiquei com a sensação que era um gesto de desespero, um pedido para que eu ficasse. Mas eu estava com pressa!...Quando voltei, três horas depois, a sua companheira estava morta.


  Foi a partir daí que assisti a uma verdadeira lição sobre sentimentos, de que não estava nada à espera, vinda de um bichinho tão pequeno como é a caturra. A dor, a tristeza e o desgosto pela morte da companheira (mas como é que um passarinho sabe o que é a morte?). Fechou os olhos, agachou-se, nunca mais comeu nem bebeu e ficou à espera.
Passaram-se horas e todas as minhas tentativas para chamar-lhe a atenção foram infrutíferas. Em desespero por ver o seu sofrimento, meti-me no carro e fui comprar uma caturra, procurei uma igual mas não encontrei, pensava eu que podia enganá-lo (caramba!...é apenas um pássaro) mas não consegui, apesar do lindo exemplar que trouxe.
Eu não sabia que as caturras acasalavam para toda a vida e mesmo que soubesse nunca me passaria pela cabeça que morressem de desgosto, quanto muito ficavam vivas e sós. Não estava preparada para o que vi e por isso chorei que nem uma perdida com o sofrimento do Passarinho.
Morreu hoje de manhã, dois dias depois da companheira com quem partilhou a gaiola durante onze anos.

Quanto à nova aquisição, não sei se fico com ela. É jovem, linda e chamo-a de... Diana.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Agendas, cadernos e papelinhos






Nunca fui muito organizada. Desde que me lembro sempre gostei de fazer listas e apontar tudo em papelinhos, mesmo que depois precisasse de uma outra lista para os encontrar.
Guardar coisas importantes, principalmente documentos, em lugar seguro, é o meu lema e sempre as guardei muito bem. Tão bem que nem eu mesma consigo encontrá-las quando preciso. Procuro nos armários da cozinha, nas gavetas, nos móveis da sala, vou espreitar no roupeiro do meu quarto. Por fim deixo de procurar nos lugares "seguros" e começo a ver debaixo e por detrás dos móveis, quem sabe, talvez tenham caído.
Esgotadas todas as hipóteses, desisto, pois paciência também não vai muito com o meu jeito. Passados dias, semanas ou até meses, pego numa mala velha que já não uso e o que é que está lá dentro? Pois, a tal coisinha que tanto procurei. Lá está, bem fechadinha e guardadinha!
Este ano já comprei duas Agendas e um caderno de apontamentos. Na Agenda aponto: ir às compras na sexta-feira, no caderno faço a lista das compras.


Quando as minhas filhas eram pequenas, eu trabalhava a semana toda, menos ao sábado depois do almoço e ao domingo, é claro. Era a chamada "semana inglesa". Nesse tempo as compras eram sempre feitas ao sábado e tinham que chegar para a semana toda. Meu Deus, eu era uma jovem dona-de-casa desgovernada! Como é que ao sábado vou saber o que comprar para o almoço da quarta ou da quinta-feira?...Pois, as listinhas!
Comecei por fazer a ementa para todos os dias da semana. Sopa, segundo prato e até sobremesa! Num papelinho ia anotando os ingredientes necessários para a confecção das refeições e, por fim, fazia a lista juntando-lhe os produtos de limpeza e higiene. Aquilo é que era organização!
Agora é diferente. Vai-se ao supermercado todos os dias...e até mais do que uma vez, se for necessário. Mas não prescindo das minhas listas.
Já tenho encontrado anotações do tipo:

8:30h - Levantar
Das 8:30h às 8:45h - Fazer o chá e bebê-lo (porque é a primeira coisa que faço quando me levanto)
Das 8:45h às 9:15h - Tomar banho ( meia hora é o tempo que preciso para a minha higiene matinal)
9:15h - Vestir-me
9:30h - Sair de casa

 E porque é que eu preciso de anotar isto? Porque acabo por sair de casa, todos os dias, às dez. Se eu me levantar às sete da manhã para ter mais tempo, distraio-me com outras coisas e saio às dez na mesma. Tenho que apontar tudo pois, ser uma mulher organizada, é muito bonito.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Corpos entrelaçados




Conheceram-se na festa de aniversário de uma amiga comum. Não chegaram a ser apresentados, para quê se ambos estavam lá e repararam um no outro? A aproximação foi desejada e a conversa saiu sem dificuldades, naturalmente, como se se conhecessem desde sempre.
Quando se despediram combinaram encontrar-se no dia seguinte, depois do trabalho, para vincular a nova amizade.

E assim foi. À hora marcada chegaram os dois ao mesmo tempo ao local do encontro, sorrisos abertos de confiança, certos de que nem um nem o outro faltaria.

Deram as mãos como se fosse lógico , como se fosse para isso que tinham mãos, para se darem uma à outra. O toque era acolhedor e suavemente se encaixaram, na perfeição. Após este simples gesto...eles estremeceram. As suas mãos apertaram-se mais, uma contra a outra, para sentir o contacto total da pele morna. Completavam-se, tinham sido feitas para estar juntas, os seus corações pulsavam nelas, em uníssono. Ambos se sentiram evadidos por uma sensação de bem estar absoluto, de certeza plena... de perfeição. 
Nunca te deixarei partir, disse ela, nem eu quero que tu me deixes, disse ele.

Caminharam durante algum tempo, de mãos dadas, mostrando para todo o mundo que estavam juntos, unidos por aquelas mãos que não se largaram desde o momento em que se tocaram.
Eram como dois corpos entrelaçados, as suas mãos...

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Não Pago!




Domingo de Pentecostes, 27 de Maio, decorre em El Rocio a rainha de todas as festas, a maior Romeria de Espanha que atrai, todos os anos, grandes multidões de forasteiros crentes ou apenas curiosos.
Eu já lá tinha estado mas fora da época da Romeria, até comprei um chapéu numa pequena loja de esquina. Lembrava-me que as ruas não eram de asfalto mas sim de areia. Foi curioso ter entrado num restaurante para almoçar e, desde a porta de entrada até mais ou menos a meio do estabelecimento , havia areia por todo o lado e ninguém limpava, nem se incomodava. Para mim isso só seria possível num restaurante na praia. Tudo aquilo me pareceu estranho, parecia-me que estava no meio de qualquer filme antigo de cowboys pois só via  homens de chapéu e montados em lindos e altos cavalos.
Mas agora, passados alguns anos, tudo me pareceu maior e o extenso areal perdia-se ao longo das ruas e praças. Gente por todo o lado, homens, mulheres e crianças trajados a rigor numa mistura alegre de cores e flores, muitos cavaleiros e muitas carroças puxadas por cavalos e mulas... foguetes no ar, sinos a tocar, muitas tendas de venda ambulante, muita música, muita dança, muitos "abanicos de colores", muita animação, muita alegria, muita cerveja, muitas bebedeiras e, acima de tudo, pó...muito pó no ar. Vi, também, alguma devoção.
Um ambiente quase irreal que nos agarra e embala nos seus movimentos de dança, quase sensuais, e as vozes em uníssono com o bater de palmas cadenciado. Olé, Espanha!

Querendo passar despercebida por entre a multidão multicolor, levei na cabeça o chapéu que lá tinha comprado, uns anos antes, apliquei-lhe uma flor a condizer com a minha saia rodada e calcei as minhas botas de cano alto (ideais para andar naquelas ruas e sem o problema de entrar areia para dentro dos sapatos). Não fui só, éramos dois casais perdidos na euforia da festa.
Na grande praça El Real celebrava-se a missa quando dei por mim um pouco afastada do grupo. Uma cigana, de olhar doce, aproximou-se com uma braçada de raminhos de alecrim. Estendeu o braço com um dos raminhos na mão, tão pequeno como um dedo mindinho, e entregou-me, dizendo que era para eu colocar aos pés da virgem e fazer um pedido. Achei bonito o gesto que me pareceu de devoção e amor ao próximo e aceitei com um sorriso nos lábios. Enquanto balbuciava muchas gracias ela pediu-me uma moedinha para ajudar nalguma coisinha. É claro que sim e retirei da carteira uma moeda de um euro. Ficou feliz. Notando que eu era forasteira perguntou-me de onde eu era, conversámos um bocadinho. Quando me ia afastar, ela , como a querer retribuir a minha atenção, pediu-me com um sorriso meigo que lhe mostrasse a minha mão, estendi-a e desculpei-me por uma pequena alergia que costumo ter, sempre por esta altura do ano, que me põe as mãos a mudar de pele. Ela sorriu novamente e começou a desfiar um rosário de palavras imperceptíveis que as minhas mãos lá lhe transmitiam. Embora não percebendo metade do que ela dizia e não acreditando em leitura da sina, eu ia acenando com a cabeça para me mostrar agradada, de seguida pediu-me a outra mão e deu-me a escolher o tema: amor, saúde, dinheiro. Quero lá saber do dinheiro, estou aqui para viver as emoções de uma festa religiosa, do amor ao próximo, da felicidade e a missa estava a decorrer.
 Meu Deus o que uma simples moeda de um euro pode fazer quando uma pessoa necessita dela! Em menos de meio minuto fiquei a saber o meu passado, presente e futuro. Agradeci àquela boa alma e despedi-me!
Mas, de repente, o meu momento de amor fraternal e universal desfez-se quando ela me diz que tenho que lhe pagar vinte euros. O quê? pergunto. Vinte euros diz-me ela. Vinte euros??? continuo eu. Sim, como estes, diz abrindo a carteira e mostrando a nota, não fosse eu não ter entendido vinte em espanhol. Não te dou nada, mas tens que dar, não dou, mas eu estive a ler a sina, mas eu não te pedi que o fizesses, mas agora tens que dar os vinte euros. Olha toma lá o teu raminho, fica lá com ele porque eu não te pedi nada. E afastei-me deixando a cigana a resmungar, ou a rogar-me alguma praga.
Senti que tinha feito figura de parva, ali no meio da multidão, de mão estendida à cigana, pensando que estava a ser educada ao dar-lhe atenção e afinal ela estava a tratar de negócios. Juntei-me aos membros do meu grupo e contei o sucedido e eles riram-se da minha ingenuidade..
Sentados a uma mesa, enquanto íamos petiscando umas iguarias, eu ia pensando que o chapéu com a flor e a saia rodada não eram suficientes para me camuflar, sentia-me um pouco vulnerável e à mercê dos oportunistas, faltava mais um acessório. Então, eis que aparece um marroquino que, de mesa em mesa, ia fazendo venda de leques e xailes. Mesmo a calhar! Quanto custa o xaile? Cem euros, responde ele. Cem??? Toma lá cinco! E o xaile poisou, delicado, em cima da mesa com um desconto de 95 euros...
Já não há respeito pela Santa!!!

Eugénia Sena