quarta-feira, 27 de junho de 2012

Morrer por amor





Talvez tenha interesse para alguém o que vou contar, principalmente se for apreciador de aves e mais concretamente, como é o caso, de caturras.
Por altura da morte da princesa Diana, está quase a fazer quinze anos, comprei uma caturra. O trágico acidente que vitimou a princesa ainda estava na minha lembrança e, como era uma pessoa que eu admirava, resolvi em sua homenagem dar à caturra o nome de Diana.
Tinham-me dito que estas aves eram inteligentes, que aprendiam depressa a imitar sons, assobiavam e até falavam. Bem, a minha Diana nunca falou mas aprendeu todos os assobios que eu lhe ensinei. Era um pássaro jovem, alegre e comunicava muito connosco através dos seus gritos e apitos.
Ao fim de quatro anos de estar na nossa casa, pensei que ela seria ainda mais feliz se tivesse companhia na gaiola, talvez um namorado. Eu não percebia mesmo nada do assunto! Nessa altura fiquei a saber que ela precisava era duma namorada, pois era macho. E de Diana passou a chamar-se Diano.
Foi-nos oferecida a linda "menina" para contentamento do meu Passarinho, era assim que eu o chamava. Arisca, não gostava muito de namoricos nem que ele lhe cantasse aos ouvidos os "lindos" assobios que eu lhe ensinara, sacudia a cabeça com desagrado e, muitas vezes, corria com ele à bicada.
Os anos foram passando, o Passarinho sempre majestoso no seu poleiro e ela sempre esgaravatando no fundo da gaiola, onde os vi namorar algumas vezes.
Todas as manhãs iam para a rua, excepto dias de chuva, de muito frio ou muito calor, e ao fim da tarde regressava a gaiola a casa. Assim foi, até há dois dias atrás.
Na segunda-feira de manhã, verifiquei a comida e a água antes de os levar para a rua, a  fêmea estava de pé no chão da gaiola, tudo normal, mas, enquanto os transportava, vi-a cambalear e desequilibrar-se. Achei estranho mas coloquei a gaiola no lugar e afastei-me, olhei para trás e vi que o macho tinha descido do poleiro e que me seguia com o olhar, de pescoço esticado. Olhei duas vezes e fiquei com a sensação que era um gesto de desespero, um pedido para que eu ficasse. Mas eu estava com pressa!...Quando voltei, três horas depois, a sua companheira estava morta.


  Foi a partir daí que assisti a uma verdadeira lição sobre sentimentos, de que não estava nada à espera, vinda de um bichinho tão pequeno como é a caturra. A dor, a tristeza e o desgosto pela morte da companheira (mas como é que um passarinho sabe o que é a morte?). Fechou os olhos, agachou-se, nunca mais comeu nem bebeu e ficou à espera.
Passaram-se horas e todas as minhas tentativas para chamar-lhe a atenção foram infrutíferas. Em desespero por ver o seu sofrimento, meti-me no carro e fui comprar uma caturra, procurei uma igual mas não encontrei, pensava eu que podia enganá-lo (caramba!...é apenas um pássaro) mas não consegui, apesar do lindo exemplar que trouxe.
Eu não sabia que as caturras acasalavam para toda a vida e mesmo que soubesse nunca me passaria pela cabeça que morressem de desgosto, quanto muito ficavam vivas e sós. Não estava preparada para o que vi e por isso chorei que nem uma perdida com o sofrimento do Passarinho.
Morreu hoje de manhã, dois dias depois da companheira com quem partilhou a gaiola durante onze anos.

Quanto à nova aquisição, não sei se fico com ela. É jovem, linda e chamo-a de... Diana.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Agendas, cadernos e papelinhos






Nunca fui muito organizada. Desde que me lembro sempre gostei de fazer listas e apontar tudo em papelinhos, mesmo que depois precisasse de uma outra lista para os encontrar.
Guardar coisas importantes, principalmente documentos, em lugar seguro, é o meu lema e sempre as guardei muito bem. Tão bem que nem eu mesma consigo encontrá-las quando preciso. Procuro nos armários da cozinha, nas gavetas, nos móveis da sala, vou espreitar no roupeiro do meu quarto. Por fim deixo de procurar nos lugares "seguros" e começo a ver debaixo e por detrás dos móveis, quem sabe, talvez tenham caído.
Esgotadas todas as hipóteses, desisto, pois paciência também não vai muito com o meu jeito. Passados dias, semanas ou até meses, pego numa mala velha que já não uso e o que é que está lá dentro? Pois, a tal coisinha que tanto procurei. Lá está, bem fechadinha e guardadinha!
Este ano já comprei duas Agendas e um caderno de apontamentos. Na Agenda aponto: ir às compras na sexta-feira, no caderno faço a lista das compras.


Quando as minhas filhas eram pequenas, eu trabalhava a semana toda, menos ao sábado depois do almoço e ao domingo, é claro. Era a chamada "semana inglesa". Nesse tempo as compras eram sempre feitas ao sábado e tinham que chegar para a semana toda. Meu Deus, eu era uma jovem dona-de-casa desgovernada! Como é que ao sábado vou saber o que comprar para o almoço da quarta ou da quinta-feira?...Pois, as listinhas!
Comecei por fazer a ementa para todos os dias da semana. Sopa, segundo prato e até sobremesa! Num papelinho ia anotando os ingredientes necessários para a confecção das refeições e, por fim, fazia a lista juntando-lhe os produtos de limpeza e higiene. Aquilo é que era organização!
Agora é diferente. Vai-se ao supermercado todos os dias...e até mais do que uma vez, se for necessário. Mas não prescindo das minhas listas.
Já tenho encontrado anotações do tipo:

8:30h - Levantar
Das 8:30h às 8:45h - Fazer o chá e bebê-lo (porque é a primeira coisa que faço quando me levanto)
Das 8:45h às 9:15h - Tomar banho ( meia hora é o tempo que preciso para a minha higiene matinal)
9:15h - Vestir-me
9:30h - Sair de casa

 E porque é que eu preciso de anotar isto? Porque acabo por sair de casa, todos os dias, às dez. Se eu me levantar às sete da manhã para ter mais tempo, distraio-me com outras coisas e saio às dez na mesma. Tenho que apontar tudo pois, ser uma mulher organizada, é muito bonito.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Corpos entrelaçados




Conheceram-se na festa de aniversário de uma amiga comum. Não chegaram a ser apresentados, para quê se ambos estavam lá e repararam um no outro? A aproximação foi desejada e a conversa saiu sem dificuldades, naturalmente, como se se conhecessem desde sempre.
Quando se despediram combinaram encontrar-se no dia seguinte, depois do trabalho, para vincular a nova amizade.

E assim foi. À hora marcada chegaram os dois ao mesmo tempo ao local do encontro, sorrisos abertos de confiança, certos de que nem um nem o outro faltaria.

Deram as mãos como se fosse lógico , como se fosse para isso que tinham mãos, para se darem uma à outra. O toque era acolhedor e suavemente se encaixaram, na perfeição. Após este simples gesto...eles estremeceram. As suas mãos apertaram-se mais, uma contra a outra, para sentir o contacto total da pele morna. Completavam-se, tinham sido feitas para estar juntas, os seus corações pulsavam nelas, em uníssono. Ambos se sentiram evadidos por uma sensação de bem estar absoluto, de certeza plena... de perfeição. 
Nunca te deixarei partir, disse ela, nem eu quero que tu me deixes, disse ele.

Caminharam durante algum tempo, de mãos dadas, mostrando para todo o mundo que estavam juntos, unidos por aquelas mãos que não se largaram desde o momento em que se tocaram.
Eram como dois corpos entrelaçados, as suas mãos...